GLOBOESPORTE.COM : Vamos começar por um assunto chato. O que passou pela sua cabeça no exato momento em que se machucou? Paula Pequeno: Quando se rompe o ligamento cruzado, é algo muito brusco. Você não precisa nem fazer exame, pode não entender muito bem o que aconteceu que já sabe que é muito grave. Na hora é um susto muito grande, por causa do impacto. E, logo em seguida, vinha a Olimpíada. Por isso, me desesperei. A pior parte da minha recuperação foi a psicológica, que procurei trabalhar muito. Tracei meus objetivos e fui trabalhando até conseguir me recuperar. Graças a Deus estou aqui de novo. Minha primeira meta era me reintegrar à seleção e, hoje, junto com a equipe, nessa caminhada toda, espero que a gente consiga cumprir o que tanto almeja, principalmente a Olimpíada.
GLOBOESPORTE.COM : Como foi o processo de recuperação? Paula Pequeno: Foram seis meses. Nesse tempo, passei por várias fases, como reforço (muscular), ganhar amplitude, depois força, resistência. Aí veio a fase técnica. Enfim, foi um processo lento, que exigiu muita paciência. Você acaba ficando ansiosa, o que é natural, mas é preciso controlar, para que não haja precipitação. Estive em muito boas mãos, tanto do médico que me operou quanto da equipe de fisoterapeutas.
GLOBOESPORTE.COM : Como é o retorno às quadras após uma lesão tão grave e uma recuperação tão lenta? Existe insegurança? Paula Pequeno: Na realidade, você vai fazendo todo um treinamento, tanto físico quanto psicológico. Você reaprende a se movimentar perto de outras pessoas. Precisa perder o medo, o receio. Essa volta também é lenta, não é de uma hora para outra. Você precisa ganhar ritmo de jogo, precisa retomar os movimentos naturais, sem proteger tanto o joelho. É um processo, muito respeitado, para que não haja qualquer tipo de problema.
GLOBOESPORTE.COM : E assistir à Olimpíada pela TV? É mais difícil do que estar dentro de quadra? Paula Pequeno: É muito pior. No começo eu não queria assistir. Só fui ver da metade para frente. Eu não conseguia, era muito doloroso. Eu torcia muito, orava, mandava energia para as meninas, mas não conseguia ver. Depois, resolvi ser corajosa. Decidi que, por meio de vibração, eu poderia passar coisas boas e fui assistir. Vi uns quatro jogos até que chegou a partida contra a Rússia, quando fiquei destruída, como elas lá na quadra. Fiquei muito mal. É uma sensação de impotência e, ao mesmo tempo, de perda, de tristeza, pelo fato de não poder estar ali, dando força para as meninas, chorar junto, falar uma palavra que ajudasse alguém a sentir um pouco menos de dor pela perda que aconteceu. Enfim, foi muito difícil, mas passou.
GLOBOESPORTE.COM : Com a modéstia de lado, você acha que a história do Brasil nos Jogos de Atenas seria diferente se você estivesse no time? Paula Pequeno: Eu sempre digo que não. Às vezes as pessoas falam isso. Eu entendo que é para me dar força e também vejo um lado de sinceridade. Se eu acreditasse nisso, teria que acreditar que Deus me machucou para não fazer aquele ponto (contra a Rússia). E acho que não é por aí. De repente eu tinha que passar por isso para crescer psicologicamente. Acho que envelheci uns cinco anos nessa fase toda. Para mim foi muito difícil. Espero que as coisas venham com um pouco mais de tranqüilidade, de forma menos turbulenta.
GLOBOESPORTE.COM : Olhando para outras Olimpíadas, antes mesmo de começar a jogar, você acha que o Brasil já poderia ter um ouro olímpico no feminino? Acha que a seleção deu azar em outras edições? Paula Pequeno: Não. Eu acho que mesmo em 2004 foi muito próximo, estava na nossa mão. As meninas fizeram uma campanha maravilhosa, foram muito bem. Realmente não estava faltando alguém ali ou algo. Acho que não era o momento certo. A gente não consegue entender muito bem. Enquanto a gente acha que algum adversário está trabalhando muito, temos que trabalhar o dobro, para fazer por merecer. E elas fizeram isso. Se ainda assim não deu, é preciso trabalhar mais ainda. E procurar não sofrer muito com a derrota.
GLOBOESPORTE.COM : Quantas Olimpíadas pretende disputar? Paula Pequeno: Fora a que eu perdi, eu penso em disputar três Olimpíadas. É a minha meta.
GLOBOESPORTE.COM : O que você sentiu quando foi anunciada como a melhor jogadora do Grand Prix? Paula Pequeno: Não sei. Juro que já tentei lembrar, mas não sei. Já estavam me falando que seria eu. Fiquei com a perna bamba e, na hora em que anunciaram, não me lembro de mais nada. Acho que minha adrenalina subiu tanto que eu só ficava repetindo: "Meu Deus! Meu Deus!". Eu estava tão feliz de ter sido campeã, de ver a felicidade de todas as outras meninas, e minha também, depois de tanta luta, tanto sacrifício. De repente, se acontecesse mesmo, seria uma coisa que só iria somar, não só para mim, mas para todo o grupo, pois meu prêmio é dividido com elas. Então, na hora, momentos antes, a repórter da Rede Globo (Sônia Bridi) que estava lá me apontou e disse: "É você!". Aí minha perna ficou bamba e eu não me lembro de mais nada.
GLOBOESPORTE.COM : Apesar de ter apenas 23 anos, você tem uma postura muito vibrante dentro de quadra. Você acha que pode se tornar uma líder dessa geração que está surgindo na seleção feminina? Paula Pequeno: Seria meu perfil pelo fato de eu ter uma personalidade forte. O alto astral me move, a energia me move. E acho que isso dentro de quadra é muito importante, porque passa confiança. Eu sinto a confiança das outras meninas em mim. É uma troca muito grande. Mas, ao mesmo tempo, hoje nós temos uma líder muito importante, que é a Valeskinha, nossa capitã, que não deixa absolutamente nada a desejar. E a gente está muito satisfeita com ela.
GLOBOESPORTE.COM : Como é a relação de vocês com o técnico José Roberto Guimarães? Paula Pequeno: É a melhor possível. Ele é uma pessoa muito acessível, um cara muito tranqüilo. Do mesmo jeito que é exigente, bravo e perfeccionista, tem um lado muito legal. Ele procura entender as mulheres. A nossa relação é muito boa.
GLOBOESPORTE.COM : Qual é a principal qualidade dessa nova equipe? Paula Pequeno: Esse grupo tem um espírito de equipe muito forte. E é um time que é munido de jogadoras muito importantes, com qualidades muito boas, que podem ser substituídas a qualquer momento sem deixar a qualidade do jogo cair.
GLOBOESPORTE.COM : Como é a disputa do Grand Prix, uma competição tão desgastante? Como o grupo se mantém unido em uma rotina tão cansativa e longe de casa? Paula Pequeno: É muito duro. É o campeonato mais desgastante que tem. Antes de ir a gente já se prepara psicologicamente. Mas, este ano, no meu terceiro Grand Prix, conseguimos passar de uma forma muito tranquila. O grupo se dispôs o tempo todo a fazer do pior dia um dia um pouquinho melhor, para que a coisa fluísse de uma maneira mais gostosa e que não ficasse mais carregado do que é. É um campeonato em que você tem dores, que não dá para deixar passar. Você precisa de descanso, mas não tem tempo. Você sente saudades, tem os apegos, principalmente para mulher. A gente passa por muita coisa, abre mão de muita coisa para conviver em grupo, com harmonia e isso tudo vale muito a pena, principalmente quando o resultado é positivo. E o resultado final positivo é consequência de muito sacrifício.
GLOBOESPORTE.COM : O que você acha que está faltando para o Brasil conseguir vencer a China ou, pelo menos, ter um jogo mais equilibrado e não perder em três sets, como aconteceu nos dois jogos do Grand Prix? Paula Pequeno: Acredito que nos dois jogos contra a China nós entramos um pouco despreparadas, enquanto que elas, como sabem que nosso time é forte, entraram muito concentradas. Mas a gente não pode tirar o mérito delas, porque no último jogo foram quase perfeitas. E somou-se a isso o fato de a gente não ter jogado nada e não ter feito o que a gente sabe fazer. É um time campeão olímpico, que está junto há muito tempo. É uma seleção quase que permanente. Então tem todo o direito, também, de, ainda, ganhar da gente. Acabou virando uma pedra no nosso sapato, mas vamos trabalhar muito para conseguir nossos objetivos.
GLOBOESPORTE.COM : E sobre Cuba? As eternas rivais já deixaram de ser um tabu para o Brasil? Como é jogar contra as cubanas? Paula Pequeno: Cuba sempre vai ser um tabu. É como Brasil e Argentina no futebol. Mas, hoje, nossa relação fora de quadra é muito boa, muito tranqüila. A gente tem amizades mesmo com as cubanas. Eu tenho um carinho muito especial por todas elas. Dentro de quadra é completamente profissional. Elas chegam realmente a provocar, porque é o estilo delas, com essa agressividade toda. Mas a gente acaba não entra no jogo delas, para não atrapalhar a nossa concentração. A arma delas é essa. Hoje em dia é mais tranqüilo, mas não deixa de ser um jogo muito difícil, porque elas são muito fortes fisicamente. A frase que a gente mais usa no jogo é: "salta, chica!".
GLOBOESPORTE.COM : Como você começou no vôlei? Paula Pequeno: Eu era modelo, não tinha nada a ver com o esporte, e meu irmão jogava. Eu fui assistir a um jogo dele, o técnico me viu, me achou alta e me pediu para fazer um teste. Eu fiz, gostei e achei que o vôlei me motivou mais que a carreira de modelo. Até porque, seguir nessa área exigiria um esforço além do natural. Não é bom uma criança de 12 anos fazer dieta para ficar magérrima. Já no esporte eu trabalharia em cima da saúde, o que, para mim, seria muito mais lucrativo. As coisas foram acontecendo, comecei a jogar em Brasília, ganhei competições, fui convocada para a seleção brasileira infanto-juvenil com 15 anos e não parei mais.
GLOBOESPORTE.COM : Você deixou a carreira de modelo para virar jogadora de vôlei. Depois que começou a aparecer, já recebeu propostas para fazer ensaios sensuais ou mesmo sem roupa? Aceitaria fazer? Paula Pequeno: Já existiram especulações, alguns convites. Eu nunca fecho portas, a gente nunca sabe o dia de amanhã. Mas acho que, como atleta, não gostaria de associar minha imagem com uma revista sensual. Enquanto eu jogar, prefiro não fazer esse tipo de coisa. Não passar para esse lado.
GLOBOESPORTE.COM : Você pensa em jogar fora do país? Já teve muitas propostas? Paula Pequeno: Faz uns cinco anos que tenho propostas para jogar na Europa. No ano passado, quase joguei fora. Mas achei melhor para mim, mais conveniente, ficar mais um ano no Brasil, já que estava voltando à seleção. Além disso, estou no Osasco, que é um time que eu amo, onde jogo há sete anos. Me sinto em casa, muito à vontade. Espero que seja mais um ano de vitórias. Mas jogar fora do país está nos meus planos. Não sei quando, mas, em breve acho que vou sim.
GLOBOESPORTE.COM : Você é considerada, hoje, uma das musas da seleção e até do esporte brasileiro. Em quadra, procura sempre estar com um brinco, uma maquiagem, aquela bandana no cabelo. Você é muito vaidosa? Paula Pequeno: Acho que a minha vaidade toda mulher tem que ter. É mais voltada para a feminilidade, do cuidado. Tem um ponto que a vaidade, se passar, chega a trapalhar. Com relação a esse lance de musa, isso já acontece há bastante tempo e encaro isso como um carinho do público. As pessoas falam, acho bonitinho, mas isso não me influencia muito. Minha meta sempre foi e sempre será ser reconhecida profissionalmente. O fato de ser musa ou não vai acrescentar nada na minha carreira. Aliás, sempre falo que beleza não faz ponto. De qualquer forma, obrigada aos que me consideram uma musa!
Entrevistas