Entrevista Bradesco Universitários

"Esporte é sobrecarga, exigência, mas sempre vai oferecer uma vida saudável, mais tranqüila, com objetivos. Você aprende a lidar com as pessoas".
Paula Renata Marques Pequeno começou a carreira de jogadora de vôlei em sua cidade natal, Brasília. Há nove anos faz parte da equipe do Finasa/Osasco, clube em que conseguiu os resultados mais expressivos, como o tricampeonato da Superliga. Foi campeã mundial em 2001 e campeã da Copa São Paulo de Vôlei e do Paulista 2006. Iniciou na seleção brasileira em 2002, participando do Mundial daquele ano, quando o Brasil terminou em sétimo lugar. Uma lesão grave no joelho impediu que participasse das Olimpíadas de Atenas, para a qual sua convocação era praticamente certa. De volta às quadras, em 2005, ajudou o Brasil a conquistar o título Grand Prix e foi eleita a melhor jogadora da competição. A maternidade a afastou novamente, mas ela conseguiu retornar a tempo de fazer parte da equipe que disputou o Mundial no Japão, em 2006, e ajudar na conquista da medalha de prata. Foi a melhor atacante da Superliga feminina 2006/07. Nessa entrevista exclusiva ao Bradesco Universitários, Paula fala de sua relação com o esporte.
Bradesco Universitários - Você treinava desde criança? Como decidiu seguir a carreira de jogadora de vôlei? Antes era modelo, certo? Paula Pequeno - Isso, eu desfilava e meu irmão jogava vôlei e fui assistir a um jogo dele. O técnico do time dele me achou alta e me pediu para fazer um teste. Aí passei, gostei e fiquei. Troquei as profissões.
O vôlei não era algo que você praticava, jogava na rua? Às vezes brincava, mas muito de leve. Principalmente por eu ser menina não saía, não ficava muito na rua. Na escola tinha vôlei na recreação, mas nada que fosse uma iniciação ao esporte.
Que pessoas mais a ajudaram a chegar aonde chegou? Seus pais a incentivaram? O que me ajudou é que minha mãe também foi atleta (jogadora de vôlei também), gosta muito de esporte e me incentivou muito. Meus pais gostam muito de esporte. Meu pai é mais voltado para a música, mas também gosta muito de esporte. Então o incentivo foi, em primeiro lugar, dos pais e é o que dá o grande impulso.
E por conta disso você teve de abandonar o colégio? É. Um pouco mais para frente eu tive que parar porque com 14 anos eu já estava em São Paulo, já jogava infanto-juvenil e adulto aos 15 anos. Não dava para conciliar e tive que abrir mão.
Você pretende retomar os estudos? Com certeza! Pretendo sim. Quero retomar os estudos, terminar o que falta e fazer alguns cursos, principalmente de administração, hotelaria, essas coisas, porque meu sonho é abrir uma pousada.
Quais foram os principais obstáculos que enfrentou para tornar-se uma jogadora admirada pelos brasileiros? Na realidade o único problema que tive foi na época em que vim para São Paulo. Fiquei longe de todo mundo. Fiquei morando sozinha, muito nova, e isso é realmente muito difícil.
Chegou a pensar em abandonar a carreira? Nessa época que eu vim, fiquei um pouco indecisa. Isso me fez balançar um pouco, já não tinha tanta certeza de que queria isso mesmo, se era isso que eu queria para minha vida, porque estava muito sozinha e sofrendo muito. Eu era uma criança, não tinha jeito, não tinha nem psicológico para isso. Mas o tempo foi passando, as portas foram se abrindo e eu ficava com a cabeça sempre muito ocupada. Fui ganhando gosto, acabei decidindo definitivamente e nunca mais pensei em parar.
E os fãs? Há muitos sites e blogs na internet feitos em sua homenagem. Além de destacarem sua competência profissional, os fãs também se mostram admiradores da sua beleza. Como lida com os fãs e com o posto de "musa"? Isso foi um título que me deram por puro carinho, por admiração e tudo isso. O que eu fico feliz é que isso não envolve o meu lado profissional. As pessoas continuam me cobrando como atleta, cobrando como profissional e é isso que eu quero para a minha carreira. A minha relação com os fãs é muito boa, muito próxima - dentro dos limites, é claro ?, eu procuro atender o máximo de pessoas possível. Procuro dar o melhor dentro do pouco tempo de atenção que é possível dar, porque é sempre tanta correria. Realmente o que posso fazer para corresponder o amor e o carinho que eles me dão eu faço, sempre.
O vôlei aparentemente adquiriu o posto de segundo principal esporte no Brasil. Com essa popularidade, você acha que há incentivos suficientes para jovens que pretendem seguir carreira? Como vê a oportunidade de ser patrocinada por Finasa/ Bradesco? Primeiro, o que o voleibol é hoje as outras gerações começaram a construir há muito tempo. Acho importante lembrar isso. Hoje realmente conseguimos alcançar alguns objetivos, algumas metas muito importantes que favoreceram patrocínio, a divulgação do esporte, oportunidades em geral. Tudo isso, mas acho importante dizer que todas as gerações, querendo ou não, vão plantando, cada uma na sua época. Jogadoras de duas gerações atrás começaram a colocar a bandeira do Brasil lá fora e impor respeito. E a gente continuou com isso.
Quanto a ser o segundo esporte do Brasil e ser patrocinada pela Finasa, eu sou suspeitíssima (risadas). Tem uma política muito correta, é rígida, mas ao mesmo tempo é muito humana, muito completa. O Bradesco é completo mesmo, junto com a Finasa, junto com a estrutura, com a diretoria, comissão técnica, tudo é feito com muito carinho e muito respeito. Isso não tem preço. Eu falo isso de boca cheia porque aqui é a minha casa. Toda a minha carreira ? fora a parte de seleção ? está aqui dentro. Sou muito suspeita para falar que eu amo a Finasa.
Dentro desse cenário, o vôlei de praia também cresceu muito. Já pensou em se aventurar na areia? Já foi convidada para fazer dupla ou participar?
Não. Não tenho vontade, até porque ? não sei se sou perua ? mas eu detesto areia (risadas). Fico toda agoniada quando estou com aquela areia nas mãos. Mas quem sabe, a gente nunca sabe o dia de amanhã, né? Talvez eu faça uma terapia para gostar de areia. Por enquanto eu nunca tive vontade.
Quais os principais benefícios que o esporte propicia para os jovens? Primeiro, saúde, novos horizontes. O estilo de vida é muito gostoso. É lógico que além da saúde há também o impacto, é muita sobrecarga, é muita exigência e isso, com certeza, é a parte que exige muita predisposição. Mas o esporte, em geral, sempre vai oferecer esse lado da vida saudável, uma vida mais tranqüila, com objetivos. Você aprende a lidar com as pessoas.
O que um esporte de equipe como o vôlei, em que se aprende a lidar com as suas próprias limitações e a dos outros pode ensinar para a vida de uma maneira geral? Isso ajuda muito, porque você passa o ano inteiro com pessoas que você convive mais tempo que com a sua própria família. Você é obrigado a relevar algumas coisas e se impor em outras. E assim vai, é uma relação de marido e mulher mesmo. É um casamento, então a gente aprende a conviver, aprende a falar verdades, a escutar verdades. Aprende a lidar com os problemas juntas, sempre. Isso é muito bom porque ninguém é excelente ou bom sozinho, ele precisa sempre de um algum respaldo, de uma companhia. Duas cabeças pensam melhor do que uma. Tudo isso é muito favorável. Eu adoro. Eu amo trabalhar em grupo, por mais difícil que seja. É claro que, quanto mais gente trabalhando junto mais complicado se torna. Mas, ao mesmo tempo, para a vida, para o conhecimento, para o amadurecimento é muito bom.
Como você encara a história de ter um time Arqui-Rival? O importante é ser profissional. Raiva faz parte. Todo mundo quer ganhar, independentemente de quem esteja do outro lado e até porque, na teoria, tudo é muito fácil. Na prática, lá dentro é a gente que resolve. Independentemente de qualquer coisa, a gente vai sempre querer ganhar, sempre buscar nossos objetivos. A gente esquece de amizade, esquece de tudo isso. A única palavra: profissionalismo. Agora que a gente vai para cima de todos os adversários como arqui-rivais, isso com certeza. Não importa quem seja.
O que significa, para você, chegar à seleção brasileira? É um processo muito interessante na carreira de um atleta porque, querendo ou não, é o ápice de chegada, sendo que, ao chegar, você tem muito trabalho a fazer. Mas chegar a uma seleção brasileira é muito bom, é uma realização pessoal muito forte, que te abre portas e te faz ter objetivos cada vez maiores. Você aprende a ter pé no chão, porque você está representando um país, se ?viajar? ou sair da linha estará colocando tudo isso em risco. Pra mim é indescritível, só chegando para sentir, porque a gente batalha e batalha por isso. É como uma seleção brasileira que batalha para chegar a uma Olimpíada. É muito bom.
Você teve de se afastar por dois momentos das quadras ? durante a gravidez e quando se machucou (ligamentos) e não pôde participar das Olimpíadas de Atenas. Como encarou esses momentos? A contusão foi muito complicada. Foi muito complicado porque foi no ano de Olimpíada e perdi minha primeira Olimpíada. Já fazia parte da seleção, então eu estava com pelo menos um pezinho dentro, porque a gente não tem certeza do que vai acontecer, mas sabia que tinha uma possibilidade muito grande de ir. E aconteceu a contusão, foi muito triste. O que ficou passando na minha cabeça foi conflitante, porque eu não tinha coragem de assistir aos jogos, eu só torcia e orava. Tinha dias em que eu ligava para o fisioterapeuta em prantos e falava: Olha, hoje não vai dar, não quero ver vocês, não quero ver ginásio, não quero ver bola, não quero ver nada.
E aí, eu ia dois dias depois e ganhava três dias num só. Foi muito difícil para a cabeça. A recuperação eu sabia que ia recuperar rápido, ia voltar a ser forte do mesmo jeito. A previsão era de seis a oito meses. Em cinco meses eu estava saltando. Eu sabia que ia acabar suprindo na parte física, mas precisava ser forte na parte psicológica. É uma perda muito grande uma Olimpíada. Nesse momento eu procurei me aproximar ao máximo da minha família, amigos, namorado ? meu marido, que na época era namorado ? que foi o que me deu muita força. Isso que me ajudou a sair daquele momento difícil.
E aí, dois anos depois, eu engravidei, estava prevenida, foi um susto muito grande porque eu não esperava. Então, quando aconteceu, muitas coisas passaram pela minha cabeça. Pensei: será que vou voltar a jogar, o que a Finasa vai falar, o que o diretor vai falar, a minha mãe vai falar, meu Deus do céu, como vai ser, será que eu vou voltar, será que não vou, será que vou engordar muito, será que vou para o Mundial...Mas, acabei decidindo: é meu e ninguém tasca, independentemente de qualquer coisa.
E eu pude contar com a ajuda tremenda do Celso Barbuto, um dos grandes responsáveis pela minha saúde mental. Foi o que colaborou muito com para a lindeza e a inteligência que é a minha filha. Perfeição, graças a Deus, muito saudável. Na gravidez, querendo ou não, a gente precisa estar com a cabeça boa pra ter uma gestação tranqüila. Ter o meu marido do lado, o Celso, meus pais, foi essencial.
Destaque um momento de excepcional alegria na sua carreira.
A maior alegria, a minha maior emoção foi ter ganhado o campeonato um ano depois da minha contusão. Eu já estava muito feliz de ter voltado da contusão, de ter conseguido fazer um bom campeonato. E ainda por cima ganhei um prêmio individual de melhor jogadora. Quando ganhei aquele prêmio passou um filme na minha cabeça ? foi tanto sofrimento, tanta coisa que eu passei, que só sabia agradecer a Deus. Foi um momento muito, muito mágico.
Você imaginou que poderia ganhar esse prêmio? Na realidade, a gente nunca sabe. Eu já estava tão feliz por ter ganhado o campeonato, que aquilo foi um a mais. Talvez um presentinho de Deus pra compensar tanto sofrimento. Eu respondi bravamente a tanta coisa ruim que aconteceu. Foi o momento especial.
Quais são seus planos para o futuro, pretende se tornar técnica ou comentarista, por exemplo? (Risos) Ai, não sei. A gente nunca sabe, mas a minha vontade é de fazer algo completamente diferente da minha área.
As pousadas? É. Novos horizontes. Quero minhas pousadas. Outro estilo de vida. Mas, a gente nunca sabe o que pode acontecer... Vamos ver. Quanto a pensar e fazer planos para isso, não.
Quais os atletas que mais admira e por quê?
Giba! Giba! Giba! (risos). Ele é inigualável. Indiscutível. Ele é ? pra masculino, principalmente hoje em dia, de estatura baixa ? aquele que faz chover onde quer e na hora em que quer. Não por ser só bom. Ele é boa pessoa, tem um bom coração, ele é muito determinado.
É um guerreiro, saiu de situações difíceis também. É um jogador em quem eu me espelho muito, que eu admiro muito, até porque ele é da minha posição (atacante). É muito completo, centrado, e isso me encanta. Ao mesmo tempo em que é centrado, é vibrante, sabe, tudo (risos). Vou ficar aqui rasgando seda até amanhã se deixar, porque ele é realmente diferente.
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